terça-feira, maio 08, 2007

A lenta agonia da cultura

O livro sobre História e Antologia da Literatura Portuguesa (1º Vol. séc. XIII a XV), da autoria de Isabel Allegro Magalhães foi lançado há dias na Gulbenkian (2 Maio 2007). Com um extraordinário faro arqueológico, a autora oferece-nos belos textos de crítica literária nunca antes editados. Bem hajas Isabel! Na ocasião, a Profª Maria Alzira Seixo observou que, nos anos sessenta, a nossa geração sabia que a informação, o saber e a cultura estavam ali, do outro lado do muro, e só necessitávamos de lá ir, geralmente com a preciosa ajuda das bolsas da Gulbenkian. Hoje temos tudo aqui, ao pé de nós, e é como se nada existisse, dizia ela.
É verdade, a cultura já não circula como dantes. Não vale a pena ficarmos angustiados ou mesmo perplexos, como há dias escrevia o E. Prado Coelho (Público, 4 Maio 2007), com tal conclusão.
Antes poderíamos meditar sobre as razões que conduziram a tal hecatombe estética e poética. Certamente que não existem respostas claras, mas podemos reflectir nalgumas aproximações.
Escrevia há dias neste blog sobre aquele momento muito palavroso do referendo sobre o aborto e dizia que Deus tinha desaparecido do nosso mundo ocidental. Já não temos admiração por nada nem por ninguém. Quem detém no Mundo a afeição e simpatia de todos? O Nelson Mandela? Parece evidente que hoje já ninguém é detentor do respeito de outrem.
A Ciência ajudou-nos a destruir a nossa mente primitiva, ao mesmo tempo que a nossa alma ingénua e criativa. As razões científicas sobre a ordem das coisas, sobre a Natureza, quebraram a beleza do místico, do inexplicável, do assombroso.
A nossa candura pela beleza das coisas tem a má fama de um selvagem incrédulo.
Se toda a Natureza tem uma explicação científica, para que necessitamos nós da religião? Para nada! É a conclusão dramática de quem intui que o ser humano sem capacidade de sonhar desumaniza.
Aparentemente as religiões perderam toda a credibilidade. A Igreja Católica coloca hoje anúncios para angariar jovens aprendizes de Padre.
A nossa cultura ocidental conseguiu abolir Deus, o poder do Rei, a hierarquia e agora, lentamente, a cultura agoniza estagnada. E aqui estamos nós, órfãos de tudo e filhos de nada.
Se calhar estamos a viver a nossa Idade Média, a tal época promissora de um novo Renascimento cultural. Mas não se vislumbra como. O que existiu no séc. XVI teve como corolário a Revolução Francesa, os Direitos do Homem e posteriormente, a Democracia representativa.
Incomoda-me pensar que esta última nos obriga a nivelar por baixo o nosso sentido estético e poético. Depois de sermos todos divinos à boa maneira pagã tornámo-nos todos democraticamente iguais.
Mas agora trata-se de um novo paganismo na era da ciência e do desenvolvimento tecnológico. Acreditar no incrível, nas coisas assombrosas, na invasão do mundo pelas rosas desapareceu das nossas almas poéticas.
Tudo tem uma explicação científica no nosso mundo cartesiano. Mesmo quando somos obrigados a sair do nosso referencial de pensamento para compreender o astro de outra galáxia, a 120 anos luz, que se demonstra existir hoje, alguns milhares de anos antes de Cristo! Mas não é uma coisa mística! É ciência!
Não quero aqui dizer que o saber das ciências exactas provoca estagnação na circulação da cultura. Quero apenas dizer que as instituições científicas, tal como surgiram no séc. XVIII, transformaram a sabedoria numa coisa ímpia. Todos nós nos vergamos aos axiomas oriundos de instituições universitárias autogâmicas, isto é, com práticas não universais.
Por outro lado, hoje enredamo-nos nos subtendidos da História. Por exemplo, os textos que podem fazer História desaparecem num nebuloso Index português. Parece que o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) não sabe do paradeiro de milhares de documentos sobre o controle de fronteiras relativos ao período entre 1919 e 1975. Todos os documentos sobre os refugiados que por aqui passaram, nomeadamente os judeus fugidos da II Guerra Mundial, desapareceram de um sótão da SEF. Por coincidência, esta história recorda-me uma outra bastante singular.
Habitei vários anos ao lado de um velho edifício estatal abandonado e em total degradação. Um dia, inesperadamente, as portas encontravam-se abertas para a rua e pude observar o seu interior. Constatei a presença de alguns funcionários que se entretinham a encher enormes sacos de lixo com tiras de papel, vindos de uma máquina trituradora. Disseram-me que estavam a limpar aquele lugar que tinha pertencido ao antigo Departamento ou Secretaria de Estado da Imigração.
Vivíamos naquela época em que a comunidade judaica internacional incomodava todo o mundo, e também Portugal, sobre o ouro dos judeus espoliados pela Alemanha nazi. A questão era a de saber se o Banco de Portugal teria também esse ouro sujo de guerra, silenciado por Salazar. Como é óbvio a resposta foi negativa.
Não sei se há interligação entre estes dois sótãos, mas que há bruxas, há!
Como dizia Tomás Carlyle, ouro quer dizer heroicidade. Nós destruímos o ouro e agora queremos que existam heróis.

2 Comentários:

At 12:11 da tarde, Anonymous Rui Baptista said...

Só me espanta que textos desta envergadura literária, escritos com a sensibilidade da alma e escorados em pilares de Cultura (no sentido mais amplo e mais nobre da palavra), mereça, apenas, este meu modesto e descolorido comentário. Por onde param os corações sensíveis de uma sociedade que emudece em alturas como esta?

 
At 2:50 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Teresa,

é verdade q parece q a ciência destruiu a mente primitiva. Mas parece q é assim apenas no mundo ocidental onde nos últmos 60 anos se evoluíu mais q em toda a história da humanidade. No entanto não acredito que o homem tenha tido tempo de se adaptar e de integrar toda a informação q tem hoje disponível. E estou a referir-me apenas ao grupo restrito q tem acesso à ciência e à informação qualificada. O resto da massa humana vive na ilusão q o marketing lhe transmite.

É no entanto verdade q pior q um cego é aquele q n quer ver. O materialismo céptico é perfeitamente castrador quando recusa ostensivamente (estupidamente até) q o mundo n tem apenas 3 dimensões + 1. Para além de uma sociedade de cegos arriscamo-nos tb a viver numa sociedade de coxos.

 

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